Existe uma grande confusão no meio protestante acerca da exposição bíblica de algumas questões. Sempre que me insurjo contra certas heresias, como a esculpida na teologia da prosperidade, por exemplo, e cito algum líder religioso como exemplo de anunciador dessas mentiras, surge alguém pra dizer: “Não diga isso, irmão. Você está ‘queimando o filme’ dos evangélicos e fazendo cair os fracos na fé”. Muitos, coagidos por esse pensamento, preferem não emitir pareceres sobre temas importantíssimos e acabam ficando “em cima do muro” e permanecendo silentes quando o debate se abre.
Na lógica e na retórica, uma falácia é um argumento logicamente
inconsistente, sem fundamento, inválido ou falho na capacidade de provar
eficazmente o que alega. Argumentos que se destinam à persuasão podem parecer
convincentes para grande parte do público apesar de conterem falácias, mas não
deixam de ser falsos por causa disso. É necessário fazermos uma reflexão mais
profunda sobre os alicerces dessa falácia que, por muitas vezes, acaba
comprando a omissão dos que conhecem o Evangelho genuíno, para a alegria
daqueles que pregam um “evangelho” minúsculo e com aspas.
O primeiro argumento inconsistente dos que não apoiam manifestações
públicas contrárias a algumas vertentes teológicas contrárias às Escrituras se
encontra em 1 Coríntios 8, onde Paulo fala que não devemos usar da nossa
liberdade como maneira de escândalo para com os fracos na fé. Paulo nesse texto
aborda um assunto específico de uma situação em que a liberdade significava algo
subjetivo e não objetivo. É necessário parar aqui e entender bem o verdadeiro
teor dessa mensagem. É subjetivo o fato de eu não pregar de bermuda por saber
que isso seria motivo de escândalo em minha congregação e que tal conduta
poderia abalar a fé daqueles que são fracos na fé. Note que nesse exemplo,
assim como o exemplo usado por Paulo acerca das comidas sacrificadas aos
ídolos, é a minha liberdade expressando algo subjetivo e disponível que está
ferindo o fraco na fé. Abre-se mão de um costume, de uma prática não essencial,
para que se preserve a fé daquele que interpretaria mal aquela conduta em
determinado contexto podendo ter sua fé abalada.
A abordagem muda completamente de figura quando nos valemos da nossa
liberdade para anunciar a verdade que integra o Evangelho pleno, bíblico e
genuíno - dessa vez com letra maiúscula e sem as aspas - doa a quem doer. O
mesmo Paulo que desaconselha o escândalo advindo de determinado uso da
liberdade se mostra firme e irredutível quando o assunto é defender e pregar a
verdade. O autor foi incoerente? Com certeza a resposta é não. Na carta de
Paulo aos Gálatas no capítulo 4, versículo 16, quando o assunto é a defesa da
verdade, Paulo questiona: “Fiz-me acaso vosso inimigo, dizendo a verdade?”. Em
Filipenses 1, Paulo nos dá outra demonstração da importância de que Cristo seja
pregado, de como é necessário que o Evangelho seja anunciado, a despeito das
intenções subjetivas de quem prega.
Eis que surgem as questões finais: Quantas igrejas e pastores estão
pregando o Evangelho genuinamente bíblico? Paulo nos adverte da importância de
se pregar essa verdade e por pregá-la o mesmo foi açoitado, preso e passou
necessidades e privações. Se muitos se levantam pra pregar um “evangelho”
completamente distorcido pela pós-modernidade e pelo capitalismo, voltado para
o eu, para o ego e para o ter em detrimento do ser, por qual motivo devemos nos
furtar de trazer aos outros a verdade e anunciar o Evangelho bíblico? Paul
Washer em uma de suas pregações afirma que muitos se dizem salvos pois um dia
levantaram a mão em alguma igreja em algum momento de apelo, porém, aceitaram
algo completamente diferente do Evangelho, algo tão distorcido que não passava
nem perto da verdade bíblica. Quantas mentiras maquiadas de verdades cristãs nós
podemos ver hoje em inúmeras igrejas, saindo da boca de inúmeros pastores,
“bispos”, “profetas” e “apóstolos”? É hora de quebrarmos o silêncio por medo da
polêmica. Pregar a verdade, com destemor e acima de tudo e de todos, não é
apenas uma faculdade, mas parte indissociável da vida cristã.
Por fim, cito um trecho do teólogo calvinista e ministro da Igreja
Presbiteriana do Brasil, Augustus Nicodemus: “(...)eu sou mais a Bíblia, eu só
quero Jesus, esse negócio de discussão doutrinária só divide a igreja, é coisa
de homem e do diabo”. É claro que eles estão certos se a discussão doutrinária
for movida por interesses mercenários e pela luta pelo poder. Todavia, este
tipo de juízo generalizado revela uma falsa piedade enorme e uma ignorância
ainda maior. Se hoje estes queridos têm a Bíblia no Brasil para ler em
português e conhecem o Jesus que ela ensina é por que: (1) A Igreja reconheceu
os 66 livros somente depois de muita polêmica contra Marcião e Montano no séc.
II a III; (2) Os Reformadores quebraram o pau na Idade Média para dizer que a
Bíblia é a revelação final de Deus e com isto conseguiram que ela voltasse para
as mãos do povo; (3) Comitês de tradução brigam e disputam teologia para saber
qual a melhor tradução do grego e hebraico para o português; (4) Teólogos e
mestres crentes lutaram e brigaram contra os liberais para que as igrejas
ficassem com o Evangelho puro. Portanto, acho que estes irmãos estão
simplesmente cuspindo no prato que comem todos os dias”.
