segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Evangelho ou “evangelho”?


Existe uma grande confusão no meio protestante acerca da exposição bíblica de algumas questões. Sempre que me insurjo contra certas heresias, como a esculpida na teologia da prosperidade, por exemplo, e cito algum líder religioso como exemplo de anunciador dessas mentiras, surge alguém pra dizer: “Não diga isso, irmão. Você está ‘queimando o filme’ dos evangélicos e fazendo cair os fracos na fé”. Muitos, coagidos por esse pensamento, preferem não emitir pareceres sobre temas importantíssimos e acabam ficando “em cima do muro” e permanecendo silentes quando o debate se abre.

Na lógica e na retórica, uma falácia é um argumento logicamente inconsistente, sem fundamento, inválido ou falho na capacidade de provar eficazmente o que alega. Argumentos que se destinam à persuasão podem parecer convincentes para grande parte do público apesar de conterem falácias, mas não deixam de ser falsos por causa disso. É necessário fazermos uma reflexão mais profunda sobre os alicerces dessa falácia que, por muitas vezes, acaba comprando a omissão dos que conhecem o Evangelho genuíno, para a alegria daqueles que pregam um “evangelho” minúsculo e com aspas.

O primeiro argumento inconsistente dos que não apoiam manifestações públicas contrárias a algumas vertentes teológicas contrárias às Escrituras se encontra em 1 Coríntios 8, onde Paulo fala que não devemos usar da nossa liberdade como maneira de escândalo para com os fracos na fé. Paulo nesse texto aborda um assunto específico de uma situação em que a liberdade significava algo subjetivo e não objetivo. É necessário parar aqui e entender bem o verdadeiro teor dessa mensagem. É subjetivo o fato de eu não pregar de bermuda por saber que isso seria motivo de escândalo em minha congregação e que tal conduta poderia abalar a fé daqueles que são fracos na fé. Note que nesse exemplo, assim como o exemplo usado por Paulo acerca das comidas sacrificadas aos ídolos, é a minha liberdade expressando algo subjetivo e disponível que está ferindo o fraco na fé. Abre-se mão de um costume, de uma prática não essencial, para que se preserve a fé daquele que interpretaria mal aquela conduta em determinado contexto podendo ter sua fé abalada.

A abordagem muda completamente de figura quando nos valemos da nossa liberdade para anunciar a verdade que integra o Evangelho pleno, bíblico e genuíno - dessa vez com letra maiúscula e sem as aspas - doa a quem doer. O mesmo Paulo que desaconselha o escândalo advindo de determinado uso da liberdade se mostra firme e irredutível quando o assunto é defender e pregar a verdade. O autor foi incoerente? Com certeza a resposta é não. Na carta de Paulo aos Gálatas no capítulo 4, versículo 16, quando o assunto é a defesa da verdade, Paulo questiona: “Fiz-me acaso vosso inimigo, dizendo a verdade?”. Em Filipenses 1, Paulo nos dá outra demonstração da importância de que Cristo seja pregado, de como é necessário que o Evangelho seja anunciado, a despeito das intenções subjetivas de quem prega.

Eis que surgem as questões finais: Quantas igrejas e pastores estão pregando o Evangelho genuinamente bíblico? Paulo nos adverte da importância de se pregar essa verdade e por pregá-la o mesmo foi açoitado, preso e passou necessidades e privações. Se muitos se levantam pra pregar um “evangelho” completamente distorcido pela pós-modernidade e pelo capitalismo, voltado para o eu, para o ego e para o ter em detrimento do ser, por qual motivo devemos nos furtar de trazer aos outros a verdade e anunciar o Evangelho bíblico? Paul Washer em uma de suas pregações afirma que muitos se dizem salvos pois um dia levantaram a mão em alguma igreja em algum momento de apelo, porém, aceitaram algo completamente diferente do Evangelho, algo tão distorcido que não passava nem perto da verdade bíblica. Quantas mentiras maquiadas de verdades cristãs nós podemos ver hoje em inúmeras igrejas, saindo da boca de inúmeros pastores, “bispos”, “profetas” e “apóstolos”? É hora de quebrarmos o silêncio por medo da polêmica. Pregar a verdade, com destemor e acima de tudo e de todos, não é apenas uma faculdade, mas parte indissociável da vida cristã.

Por fim, cito um trecho do teólogo calvinista e ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil, Augustus Nicodemus: “(...)eu sou mais a Bíblia, eu só quero Jesus, esse negócio de discussão doutrinária só divide a igreja, é coisa de homem e do diabo”. É claro que eles estão certos se a discussão doutrinária for movida por interesses mercenários e pela luta pelo poder. Todavia, este tipo de juízo generalizado revela uma falsa piedade enorme e uma ignorância ainda maior. Se hoje estes queridos têm a Bíblia no Brasil para ler em português e conhecem o Jesus que ela ensina é por que: (1) A Igreja reconheceu os 66 livros somente depois de muita polêmica contra Marcião e Montano no séc. II a III; (2) Os Reformadores quebraram o pau na Idade Média para dizer que a Bíblia é a revelação final de Deus e com isto conseguiram que ela voltasse para as mãos do povo; (3) Comitês de tradução brigam e disputam teologia para saber qual a melhor tradução do grego e hebraico para o português; (4) Teólogos e mestres crentes lutaram e brigaram contra os liberais para que as igrejas ficassem com o Evangelho puro. Portanto, acho que estes irmãos estão simplesmente cuspindo no prato que comem todos os dias”.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Deus no banco dos réus - Parte 2

Deus sempre amou essas criaturas teimosas e rebeldes que insistem em viver conforme as próprias idéias e valores deturpados em nome da independência. Após o ponto de partida da corrupção do homem no jardim do Éden, Deus prosseguiu na tentativa de trazer esses seres para perto dele, mas o pecado que se instaurou com a queda se tornou uma grande barreira entre o homem e Deus. O relacionamento estava comprometido.

A princípio a humanidade desvairada apenas agiu de acordo com as próprias idéias. A degradação foi tanta, que Deus, olhando para toda a humanidade achou apenas uma pessoa que ainda se importava com Ele. Seu nome era Noé. Simplesmente deixar essas criaturas se virarem não deu certo.

Deus decidiu intervir. Mandou Noé construir uma arca e avisou que mandaria um dilúvio. As pessoas, em seu ceticismo e desfrutando da independência, apenas riram de Noé enquanto ele fazia sua arca. A humanidade foi exterminada e de um único justo vieram as novas gerações. Porém, a humanidade continuou em sua busca por independência e a degradação não parou. Fazer novas gerações virem de um único justo também não funcionou.

Foi aí que o Pai adotou uma nação e legislou para ela. As pessoas não conseguiam seguir todas aquelas leis. Mais uma tentativa frustrada.

Deus estava se comunicando através dessas tentativas. Elas foram como aulas onde o Pai estava querendo mostrar algo para a humanidade. Por fim, a maior aula de todas foi lecionada e nela estava a mensagem definitiva. O próprio Criador se fez homem e morreu pelos homens. Nas palavras de C.S. Lewis, "o trabalho pesado - que nunca conseguiríamos levar a cabo sozinhos - foi feito por Jesus. Não precisamos tentar esca­lar a vida espiritual pela nossa própria força, pois ela já desceu sobre a raça humana.". A mensagem definitiva foi dada na aula final: Sem mim vocês não podem fazer nada!

Se para a humanidade apenas restasse a justiça, não sobraria uma só pessoa sem condenação. Por amor, Deus escolheu um caminho onde a misericórdia triunfa sobre a justiça. Ele se fez homem e morreu pelos homens. "Se simplesmente nos abrir­mos ao Homem que a possuiu em sua plenitude, Ho­mem que, apesar de ser Deus, também foi verdadeira­mente humano, ele fará a vida espiritual funcionar em nós e por nós.", diz C.S. Lewis.

É simplesmente descabido e absurdo bater o martelo e condenar Deus por qualquer coisa. Ele fez infinitamente mais do que deveria ter feito. Infinitamente mais do que a justiça pediria. Como disse Paul Washer: "Satanás e os anjos caíram e Deus não os enviou salvador. Eles irão para o inferno. Nosso pai Adão caiu e, eu quero que vocês saibam que, se Deus não nos enviasse um salvador e permitisse que toda a raça humana fosse direto ao inferno, Ele ainda permaneceria justo, permaneceria glorioso e permaneceria amoroso.".

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Deus no banco dos réus - Parte 1

Deus é o culpado! Ele criou essa coisa que chamamos de terra, criou vários seres para habitar esse planetinha e então vieram as guerras, torturas, assassinatos brutais, genocídios e crianças desnutridas revirando sacos de lixo. Quem nunca ouviu isso? Renato Russo dizia em uma de suas músicas "vivemos em um mundo doente". Qualquer pessoa que vê o noticiário, passeia a noite nas ruas e vive no mesmo mundo em que viveu Renato Russo pode perceber algo simples: Algo está errado com a humanidade.

Será que somos marionetes controladas por um Deus sádico que castiga a humanidade com mazelas? Creio que a resposta esteja na própria criação. Nós, seres humanos, recebemos algo que se chama livre arbítrio logo que fomos criados. Sempre tivemos o controle das nossas próprias ações. Dentro dessa perspectiva a imagem de pessoas-marionetes fica bastante distante.

O nosso mundo ficou doente quando o ser humano, podendo escolher fazer aquilo que era bom, escolheu o que era mau. A humanidade se corrompeu, por livre e espontânea vontade, e se afastou do Criador passando a ignorar essa relação que antes existia de forma plena. Esses pequenos seres passaram a viver de acordo com suas próprias idéias e padrões morais. As recomendações de Deus passaram a ser ignoradas e a natureza humana foi sendo cada vez mais deturpada. A corrupção a qual me refiro é a origem dos males.

Hoje cada um é deus de si mesmo. Faz o que quer e vive como quer. Deus passou a ser só uma historinha velha e ultrapassada e foi guardado em uma caixinha pequena e empoeirada. A grande questão é: Quando um pai de família leva um tiro na cabeça sem motivo algum, porquê tiram Deus da caixinha empoeirada e colocam a culpa nele?

terça-feira, 19 de maio de 2009

Em minha defesa: Graça!

A graça na acepção cristã é multiforme, ou seja, se manifesta de várias maneiras. Ela pode ser definida como a concessão de bênçãos espirituais a seres humanos indignos de recebê-las. Dentro dessa perspectiva, nada do que fizermos ou deixarmos de fazer nos tornará mais ou menos merecedores destes favores. A grande faceta da graça é o sacrifício de Jesus Cristo, por meio do qual o homem pode ser salvo. Todos nós somos igualmente indignos e não merecedores desse presente, mas Deus aceita o indivíduo como ele está e, através desse sacrifício, o perdoa de forma completa. O Deus dos cristãos não é um velho barbudo que aponta o dedo na cara dos pobres pecadores e os recrimina pelos seus pecados e nem um fiscal preocupado em fazer uma lista das coisas erradas que você tem feito para depois lhe lançar raios. Pelo contrário, é um Deus que constrange pelo amor e pela aceitação.

Podemos notar posturas diferentes diante da graça. Há quem use o seu conceito de forma utilitarista, como escudo protetor dos próprios pecados. No primeiro sinal de uma possível confrontação, prontamente ergue sua defesa teológica ensaiada, caricaturando os “fariseus modernos” e falando sobre como Deus ama e aceita o pecador. Seu discurso é perfeito, porém, seu coração não expressa nada daquilo que ele acabou de dizer. Se adentrarmos à fundo no seu íntimo, não veremos vontade alguma de lutar contra o pecado. E o pior: encontraremos indiferença. Ele já se conformou com esse estilo de vida. Então prefere prosseguir enganando a si mesmo, pois admitir essa realidade seria muito desconfortável. Ele pode até ter uma boa formação religiosa, mas se o verdadeiro arrependimento não se operou em sua vida, a graça seria apenas um conceito usado para reforçar a ilusão que ele criou para ele mesmo para se sentir bem. Ele estaria se valendo de algo que não tem para justificar o que faz.

Aquele que realmente entendeu a graça em sua profundidade toma uma postura diversa. Ele sabe que a graça custou caro. Um preço tão alto que a humanidade jamais sonharia em poder pagar. Quando se depara com o presente de valor infinito e eterno que pode ser simplesmente dado a despeito de sua situação miserável, se sente constrangido. Ele reconhece o quão sujo, pecador, pequeno e não merecedor disso tudo ele é. Dentro dele brota um sincero arrependimento, que é a chave para a manifestação da graça real em sua vida. Ele sabe que continuará pecando, mas para ele a graça nunca será uma desculpa para alimentar uma ilusão tola, mas aquilo que até o último dia de sua existência terrena irá inspirar um sincero e profundo arrependimento após cada tropeço.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Ecos na eternidade

Hoje, enquanto olhava as pessoas passarem na rua pela janela, pensei em como será o momento em que eu me encontrar com o próprio Deus para ser julgado por ele.

Visualizei mentalmente a alma do maior cético que o planeta terra já teve amargando todo o seu orgulho e prepotência. Sentindo um desejo agoniantemente intenso de ter louvado a Deus como um desesperado e gritado aos quatro cantos do mundo à respeito de Sua existência e poder enquanto ainda tinha um corpo e vivia na terra.

Ao lado dele, a alma de um sujeito que viveu uma religião morna o suficiente para levá-lo ao inferno estava gemendo e amaldiçoando o seu farisaísmo oculto, sua hipocrisia e derramando lágrimas de sangue em cima de suas máscaras.

Naquele dia eu estarei nu. As desculpas que formulei para mim mesmo serão ignoradas e apenas aquilo que for verdadeiro permanecerá. As barreiras humanas serão rompidas e poderei entender plenamente como o mundo espiritual funciona. Quem eu realmente me tornei estará exposto e as decisões que tomei enquanto ainda podia ver as pessoas pela minha janela ecoarão por toda a eternidade.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A mentira sobre a verdade

A pós-modernidade introduziu a idéia de que não existem verdades absolutas. Essa perspectiva relativista busca desconstruir a idéia de uma verdade única e exclusiva.

Dentro dessa lógica, o importante é buscar a felicidade e a satisfação pessoal, seja por qual caminho for, uma vez que, os conceitos de certo, errado, bom e ruim também são colocados em cheque. Acabamos muitas vezes absorvendo essas idéias despercebidamente por estarmos inseridos nesse meio e sermos diariamente expostos a essa condição sócio-cultural do capitalismo.

Para nós cristãos, existe sim uma verdade única e absoluta. E ela tem nome certo: Jesus Cristo. É importante, por fim, que fique claro que ele não quer e não precisa de seguidores que o têm como um acessório, um amuleto da sorte ou apenas uma pílula da felicidade e do bem estar pessoal.

terça-feira, 31 de março de 2009

Amor ao próximo?!

Por algum tempo pensei que essa coisa de amor ao próximo do cristianismo não servia pra mim. Como eu iria amar aquele sujeito que considero repulsivo? Quando o assunto descambava para os inimigos declarados aí é que a coisa se complicava mais ainda. Não conseguia compreender como sentiria o mesmo que sinto pelos meus familiares e amigos por aqueles que em meu íntimo eu nem sequer nutria simpatia.

Era aí que residia o meu engano. Jesus se referia ao "amor caridade" quando falava do amor ao próximo. Esse amor é expresso não por sentimentos, mas por ações. Está intimamente ligado a um estilo de vida e não às nossas reviravoltas emocionais. O amor ao próximo ocorre quando faço algo por alguém a despeito dos meus sentimentos e preconceitos. Eu não faço porque amo, mas amo porque faço. Como bem disse John Stott, "O amor cristão não é vítima de nossas emoções, mas servo de nossa vontade".

Como os nossos cães

Ah, se agíssemos com Deus como nossos cães agem conosco.

Um dia desses quando chegava em casa, meu cão me recebeu com pequenos uivos - como quem pede algo - e com saltos espalhafatosos. Ele não havia ido na rua fazer suas necessidades e nem tampouco havia se alimentado. Notei que após ter pedido a seu modo, ele se deitou calmamente no chão, como quem simplesmente confiava que seria satisfeito.

O que nos diferencia dos seres irracionais é, obviamente, a nossa capacidade de raciocinio. Ela pode funcionar para o bem e para o mau. É através dele que compreendemos o caráter de Deus e é por meio dele que muitas vezes nos rebelamos contra Ele por nos julgarmos auto-suficientes ou por diversos outros motivos "racionais".

O cão não entende. Sua única opção é aceitar suas condições e ser submisso. Se ele conseguisse raciocinar, poderia julgar o fato de eu olhar os bilhetes na geladeira antes de levá-lo na rua como algum tipo de má vontade e se rebelar contra mim. Mas a única coisa que eu acredito que ele percebe em seu limitado instinto animal é que até então eu nunca permiti que ele passasse fome e que uma hora ou outra eu acabaria satisfazendo suas necessidades. Isso era tudo que ele precisava para deitar-se no canto da sala calmamente e descansar.